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MISTÉRIOS MARCORELIANOS
Formiga e Seus Causos

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Praça São Vicente de Férrer, a famosa "Pracinha", ponto de encontro dos amigos e dos "doidos"...

OS "DOIDOS" DA CIDADE


Hoje vou homenagear "aqueles" que ilustram o folclore da cidade e povoaram nossa infância nos idos anos 60: os "doidos". Todos sabem que qualquer cidade do interior, tem certos "indivíduos" que nos chamam mais a atenção. Não somente pelos seus modos peculiares, mas por serem, na sua maioria, pessoas que agem diferentemente dos nossos hábitos comuns. São, na grande maioria, inofensivas, voltadas aos seus universos íntimos. Sejam doidos, ou não, o fato é que tinham suas maneiras peculiares de agir perante a população que, apesar do "medo" inicial que poderiam impor, também divertiam.

Houve uma época na cidade, que ter cabelo comprido era perigoso. Explico. Um certo Delegado de Polícia literalmente "podava" os jovens, ou melhor, as suas "jubas" ou "gafurinha", como diziam. Ai daquele que ousava deixar os cabelos compridos e o "delega" cruzar o seu caminho! O infeliz cabeludo, tinha a cabeça tosada totalmente! Era um Deus-nos-acuda quando surgia o "Carequinha". Na verdade, quem gostava da idéia eram os barbeiros, Bolívar e Agostinho, pois seus salões estavam sempre abarrotados para evitar o vexame O corte "Príncipe Danilo" tornara-se a moda de então (eu, particularmente, detestava aquela nuca pelada que tinha que ficar... mas era a imposição por causa da "repressão capilar" em que vivíamos...

Outro tipo curioso era o jardineiro Zico, que ficava nas redondezas da Praça São Vicente Férrer, a velha "pracinha". Quando a meninada se reunia para jogar tapão, ou brincar de esconder no coreto, bastava aparecer o Zico, que todos gritavam impiedosamente: "Ô Zico Babão!" De longe, dava para ver o brilho de seu canivetão e não ficava um para contar a história. Pernas pra que te quero! Corria o boato que ele também tinha um facão que era "para capar menino sem-educação". Mesmo assim, o Zico era bem quisto, pois, apesar de não apreciar seu apelido, era amigo daqueles que o respeitavam.

E quem se esquece do Coréia? O alfaiate Zé Júlio também detestava ser chamado por essa alcunha. Como sempre, havia quem lhe gritasse tal nome e... sai de baixo! Ele vinha na sua direção, carregando aquela sua pasta velha e surrada, praguejando impropérios que não dava para identificar. Outra correria desenfreada!

Com sempre fui muito metido a corajoso, certa vez, "usei" o Coréia para "agir indevidamente" com minha irmã. Estávamos eu e ela, andando de bicicleta na rua de casa. De repente, verifiquei que o pneu de minha bicicleta estava furado. Teria que parar de andar e levá-la até o João, o "consertador". A mana, então deu o azar de rir da minha situação. Não gostei. De repente, vi que o Coréia surgia na esquina: "Kakaya, me dá a sua bicicleta agora!" Obviamente, ela recusou prontamente e continuou seu caminho. Repeti o pedido, dessa vez impondo: "Se não me der a bicicleta, vou chamar o Coréia pra te pegar!" Ela duvidou que eu tivesse tanta ousadia e eu não perdi por esperar e gritei: "Sr. José Júlio! Esta menina não quer me dar a sua bicicleta para eu andar!". Para minha surpresa, ele andou na direção de minha irmã. Ela, com medo, parou na hora. Então, pegou seu braço e tirou-lhe a bicicleta, entregando-a para mim. Como se nada tivesse acontecido, continuou seu caminho: rua Monsenhor João Ivo abaixo. Conclusão: levei um castigo em casa quando o papai soube do meu truque baixo: um mês sem andar de bicicleta. Mereci...

Outro tipo famoso, que por sinal ainda vive, foi o Tumpade, filho do saudoso Oficial de Justiça, Sr. Alcimínio. Ele divertia a criançada, mas também dava medo quando virava o "Cabeção", que era um boneco grande, feito de papel. Fazia anúncio das promoções da Casa Três Irmãos. Com pernas de pau, dentro da fantasia e com um megafone, ele andava por toda a cidade, gritando as ofertas daquela tradicional loja. Minhas duas irmãs também tinham pavor dele. E era outro motivo para eu conseguir as coisas: "Ou me dá isso, ou vou chamar o Cabeção pra te pegar!" Só não podia ser descoberto pela mamãe... Senão, dá-lhe chinelada!

A turma do Tiro de Guerra daquela época deve se lembrar muito bem do "patriota" Castora. É que em todo desfile ou ordem unida do Tiro, ele parava e, em posição de sentido, batia continência. Em seguida, cantava o Hino Nacional. Ou melhor, tentava emitir algum som, uma vez que era fanho. Os soldados se seguravam para não rir. Senão perdiam pontos ou eram repreendidos pelo severo Sargento Batista. Falando em segurar para não rir, alguém se lembra do Lelé? Pois quando ele entrava na igreja, em plena missa - de preferência aos domingos - no corredor principal, próximo ao altar, "religiosamente" enfiava as mãos dentro das calças e inocentemente coçava as nádegas. O respeito pelo sacro ambiente nos fazia segurar o riso. Caso contrário, poderíamos cometer um "pecado mortal"...

E assim vai. A Margaridinha era um senhora idosa que tinha uma voz muito fina e gritava no meio da rua. Vestia-se garbosamente em tempos de desfile. E o Gurips! Alguém se lembra do Gurips? Por que Gurips? Ele tinha a mania de ficar gesticulando, como que se quisesse pegar alguma coisa no vazio. Todas as vezes que cruzávamos com ele, perguntávamos: "Ô que você está querendo pegar?" Calmamente, ele respondia: "Estou tentando pegar gurips!". Pelo visto, até hoje ele não conseguiu "aprisionar" um gurips...
Finalmente, não posso esquecer de um dos mais famosos "malucos" da cidade: o João Manquinho!


"Ô João Manquinho!!"...

Ele brandia o grosso pedaço de pau como se fosse uma borduna e o ofensor não ousava ficar a seu alcance. Logo que nos instalamos em Formiga, papai foi à cadeia pública para uma visita oficial, em companhia do Dr. José Emanuel Rodarte, o saudoso Dr. Juca, (pai do Henrique - citado acima - amigo de infância, companheiro de eméritos "faroestes" no grande quintal de sua casa), figura exemplar de advogado. Com eles foram meus irmãos, Márcio e Marcelo, irrequietos e irreverentes adolescentes, sempre prontos para uma piadinha fora de hora que o papai nada apreciava, dada a sua típica seriedade característica de um juiz. Enquanto ele, meu pai, e o Dr. Juca observavam o péssimo estado em que se encontrava a referida cadeia, que caia literalmente aos pedaços, resultado da indiferença do governo estadual de então (com certeza não era época de eleição...), meus dois salientes irmãos começaram a azucrinar um dos presos, que se encontrava isolado em uma cela.

Era justamente o João Manquinho, que lá estava - em decorrência do seu conhecido mau gênio. Ao ser provocado pelos garotos sem compostura, não se conteve e soltou os habituais impropérios. Nomes feios de todos os calões. Preocupado pelo mal- estar reinante, Dr. Juca chamou-lhe a atenção energicamente, dizendo que os dois meninos eram "filhos do Juiz de Direito. Então, o ousado e irado João Manquinho respondeu em alto e bom som: "Pensei que eram filhos de um elefante!!". Prevendo novos palavrões, papai retirou os dois provocadores da porta da cela e, estrategicamente, encerrou a visita. O ocorrido sugere, certamente, uma pergunta: por que estava preso o João Manquinho? Teria cometido alguma infração penal? Ficamos sabendo, depois, que a causa fora um fato curioso, que passo a narrar.

Inconveniente e, como disse, agressivo, ele cismou de assentar na soleira da porta da casa da D. Jandira Chagas - outra querida e competente mestra da Escola Normal . Dando a porta diretamente para a rua, ele impedia a passagem dos moradores, que lhe temiam a violência, agravada pela pesada bengala, sua companheira. Porque passava pelo local, ou porque alguém lhe pediu o auxílio, o então Promotor de Justiça, Dr. Arnaldo de Senna - que ninguém ousava desrespeitar, é bom frisar - determinou-lhe que se retirasse imediatamente, pois estava impossibilitando os moradores de entrar ou sair. João Manquinho não se abalou e respondeu com palavrões.

O Dr. Arnaldo então ameaçou-o de prendê-lo por desobediência e porque cometia uma infração penal. O infrator, atrevido como sempre, perguntou-lhe "quem era ele para mandá-lo ao xadrez". Ouvindo a resposta de que se tratava do Promotor da cidade, ele retrucou com veemência e petulância: "Identifique-se!". O resultado todos já podem deduzir. Dr. Arnaldo, sem mais contemplações, nem advertências, chamou a polícia e o João Manquinho foi ver o sol nascer quadrado.

Na verdade, ficou pouco tempo na cadeia. Voltou à liberdade mais tarde, para sofrer as maldades dos pedestres dispostos a provocar-lhe os acirrados ânimos. Sabe-se, ainda, que pouco tempo depois ele chegou a ameaçar a eficiente D. Ângela Eleotéria da Silva Lentz, do Cartório do 3º Ofício, só porque ela o surpreendera fritando lingüiça na porta do Fórum (o antigo prédio) e às 7 da manhã! Risco de incêndio!

Quem sabe, D. Ângela salvou o velho prédio da destruição!


LEI DA FÍSICA

Certa vez, estávamos eu e Cláudio Fernando de Senna, brincando de "pegador" perto da Igreja Matriz. De repente, interrompi a correria e vi que uma senhora idosa subia com dificuldades a rua que daria na pracinha. O Cláudio notou que eu havia parado e me perguntou a razão daquilo. Perguntei-lhe se topava fazer uma boa ação. Ele assentiu e nos aproximamos daquela senhora simpática, oferecendo-lhe nossa ajuda para que seu esforço fosse minimizado. Provavelmente, ela se admirou com tal inesperada atitude vinda de dois meninos que pararam repentinamente de brincar só para ajudá-la. De braços dados, um de cada lado, a conduzimos até o interior do Igreja. Ela nos agradeceu emocionada e nos perguntou de quem éramos filhos. Respondemos que "era do Juiz e do Promotor" da cidade. Então voltamos à nossa algazarra habitual na rua. Passados alguns dias, o resultado da "boa ação" aconteceu.

Numa noite de domingo, logo após a missa das seis e do cinema das oito, resolvemos, eu e Cláudio, "dar uma chegada no Clube". Ao chegarmos perto da entrada, notamos que outros colegas nossos voltavam com a cara fechada. Ficamos sabendo, que o temível porteiro, o Lauro, não estava permitindo a entrada sem a carteirinha do Clube Centenário. E nós estávamos sem ela! Nossa casa estava longe (éramos vizinhos) e já eram quase dez horas. Não daria tempo para pegarmos as ditas carteiras. O pior é que havia "paqueras" nossas na hora dançante que ali acontecia! O jeito era ir embora. O Lauro era rígido e ele não cederia. Eis que de repente o vimos acenando para nós, chamando-nos. Quando chegamos perto, perguntou de quem éramos filhos. Respondemos que "era do Juiz e do Promotor". Sem pestanejar, nos empurrou para dentro. Antes de perguntar-lhe o motivo de termos podido entrar sem a carteirinha, ele nos respondeu, esboçando uma emoção indisfarçável: "Vocês ajudaram minha mãe e merecem entrar sem a carteirinha...". Orgulhosos, subimos a rampa do Clube satisfeitos por termos feito uma boa ação que nos deu frutos. Fizera efeito a famosa Terceira Lei de Newton: "para toda ação, uma reação de igual força".


VALENTÕES FRUSTRADOS

Dois "causos" envolvendo "briga de rua" merecem ser lembrados. O primeiro, aconteceu comigo, o mesmo Cláudio Fernando, Mauro Collen e Og Teixeira, por sinal, meus amigos inseparáveis naquela época de ouro. Estávamos fazendo uma guerra de "chique-chique" na pracinha. De repente, uma dessas sementes acertou um outro garoto que passava por perto. O menino então correu em nossa direção, disposto a brigar. Em número maior, não recuamos. Íamos dar-lhe um corretivo por causa de sua petulância, quando de repente surgiram outros meninos. Notamos que aquela turma eram os famosos "moleques da rua Nova", uma gang de pivetes que batia em todo mundo que lhes surgia à frente (da nossa idade, claro).

Sem saída, tememos por nossa integridade física. Eis que a sorte sorriu para nós. Surgira a divertida e estimada mestra Enaura Pinheiro Rodarte. Gritamos por seu nome, clamando-lhe que nos ajudasse "porque a molecada da rua Nova queria bater em nós!". Com seu jeito extrovertido, ela não pensou duas vezes. Foi em direção da turba que já estava próxima e ameaçou-lhes com veemência: "Podem correr seus diabinhos, senão eu vou chamar o João Soldado!". Não ficou um para contar a história! Mas, pelo visto, não aprendemos a lição. Numa típica e úmida noite de luar, jogávamos no tapão num dos bancos de granito da pracinha. Ali estava o "fera" José Otoni, não só o melhor de todos, mas famoso por ter as figurinhas mais difíceis. Eis que nos aparecera um estranho disposto a desbancar o nosso melhor jogador. E foi isso mesmo que aconteceu.

Ele não perdia uma. Ao final do jogo, não deixamos ele levar as figurinhas ganhas. Como se não bastasse, demos uma pequena sova no insolente, o que rasgou-lhe a camisa, talvez a única que tinha. O resultado da maldade não poderia ter sido outro. Na noite seguinte, ele voltou à pracinha e, de canivete em punho nos ameaçou a todos, prometendo "cortar um por um" se não lhe déssemos as figurinhas ganhas e uma camisa nova. Morrendo de medo, cada um teve que sacrificar o dinheiro da merenda para fazer uma "vaquinha" e comprar uma camisa nova para o pobre coitado. Castigo merecido...


ZONA EM POLVOROSA

Em 1971, veio morar em nossa casa, o americano Ronald, bolsista do Rotary, que a partir de então (até hoje) tornou-se o nosso "irmão". Num daqueles típicos finais de semana em Formiga, meus irmãos Márcio e Marcelo, resolveram levar "escondido" o referido anglo-saxão para conhecer a "casa das comadres", situada na rua Santo Antônio. Como ele era menor de idade, todo cuidado seria pouco. E lá foram eles, além de outros amigos chegados, tais como o Ciro Soares, o João Bosco Almeida, o Oto Pereira e o "Major" (Ricardo Rocha). Acomodaram-se em volta de uma mesa situada na copa-sala do pequeno bordel e começaram a apreciar as "quengas formiguenses". Em dado momento, o Márcio notara que o Rony (como sempre o chamamos), com todos os seus quase 100 quilos, fazia um perigoso "vai-e-vem" com a sua cadeira, apoiando-se na mesa com os pés. Antes mesmo que ele, o mano Márcio, o advertisse, a cadeira não resistiu ao peso do brutamontes e tudo foi ao chão. Inclusive a cristaleira das "madames"! Não precisa dizer que o pânico se instalou por causa da barulheira de vidro quebrado que cortara o silêncio da madrugada. Imediatamente o Zé Peitudo apareceu para garantir a segurança do recinto.

Todos surrupiaram, com medo de represálias por estarem juntamente com um menor de idade. Além do mais, meus irmãos temiam que nosso pai, então Juiz, ficasse sabendo da estrepolia noturna. As "senhôras da noite" não gostaram nada da presença do primeiro americano em seus domínios!


O CINEMA FORMIGUENSE

Tínhamos em Formiga (será que já voltou a ter?), duas salas de cinema: o Cine Glória e o Cine Rocha. A rotina dominical dos jovens de minha idade - por volta dos 13 e 14 anos - era assistir "religiosamente" à missa das seis (mesmo que fosse do lado de fora da igreja...) e depois pegar o caminho do cinema para assistir aos faroestes de John Wayne, ou "Jovaine", como se dizia, do Giuliano Gemma, ou aos épicos que passavam em "cinemascope" na sessão das oito do Cine Glória. Sem contar, claro, com as fabulosas comédias do Mazaroppi e do Jerry Lewis.

Pouco antes dos filmes, as filas dobravam a esquina e quem não saía um pouquinho mais cedo da missa, ficava para trás. O dinheiro sempre era contado para comprar o ingresso, além dos tradicionais saquinhos de pipoca e de bala Chita. Nessas filas, sempre havia os engraçadinhos, que mexiam com todo mundo, além dos valentões que furavam as filas sem maiores cerimônias. Isso nos deixava com raiva e sem poder fazer nada para impedí-los, pois éramos mais fracos e ninguém tinha coragem de encarar... Senão apanhava ali mesmo.

Se o filme fosse censura livre ou 10 anos, tudo bem, mas se fosse censura 14 anos, aí tínhamos que apresentar a carteira de estudante ao porteiro Olimer, cujo cabeção mais parecia o Tumpade quando se vestia de boneco para anunciar as ofertas da Casa Três Irmãos. Dependendo de seu humor, ele deixava entrar, mesmo sem comprovar. Mas meu problema era justamente esse. Nunca parecia ter a idade real e, por isso mesmo, tinha de sempre estar com a minha carteirinha, a fim de evitar ser barrado e das eventuais troças dos colegas. Tal constrangimento perdurou até depois que fiz os almejados 18 anos!

Além do mais, até o próprio dono do cinema, o "seu" Franklin - que era também professor de francês e latim, além de exímio escultor e pintor - ficava de tocaia, a fim de pegar aquele que escapulisse das garras do Olimer. Se fosse pego, era posto para fora sem desculpas! Além do fato de ter sempre de provar minha idade, eu tinha ainda de dar exemplo, pois papai era o então Juiz de Menores e, como se não bastasse, um dos censores! De quando em quando, o dono do cinema o chamava para assistir à uma sessão vespertina, visando "aplicar" a devida censura ao filme. Geralmente, os filmes impróprios para menores de 18 anos eram, por exemplo, os do James Bond, as famigeradas pornochanchadas e outros policiais mais violentos do Clint Eastwood. Assim sendo, papai baixava um memorando que ficava afixado na portaria do Cine Glória. Hoje, esses filmes passam na "Sessão da Tarde"...

Quando a fita era distribuída pela "Condor Filmes", sempre antes de começar o filme, aparecia um condor no alto de um pico. A farra era total. Para a ira do "seu" Franklin, todos faziam ao mesmo tempo um barulhento "chhhhhiii", como que se estivesse tentando espantar a ave, que voava em seguida, provocando gargalhada geral. Mas o que mais irritava o dono do teatro era, se durante uma sessão, algum bagunceiro estourasse um saquinho de pipoca cheio de ar. Se fosse descoberto pela lanterninha indiscreta do "chefão", corria o risco de ser posto para fora aos berros. Essa lanterna também servia para pegar os casais mais afoitos em flagrante. Um beijo em hora errada podia dar um "quiprocó" danado. Às vezes até as luzes do cinema acendiam e o humilhado par era expulso de suas dependências.

Na verdade, isso acontecia pouco, uma vez que o inocente ato de "pegar na mão" já era um grande feito... Outro motivo que poderia fazer com que as luzes fossem acessas, era quando uma bomba era jogada do lado de fora para dentro do cinema. O estouro dava um susto danado. Conversa alta, piadinhas ou vaias, eram também razões para gerar um pito do saudoso dono do cinema!

Nos dias de semana, o cinema mais freqüentado, era o Cine Rocha, que ficava na Chapada. Ali assisti bons filmes de Harold Loyd com meu pai. O melhor de tudo era que eu sempre ficava numa espécie de camarote, bem perto do projetor. O som da fita rodando perto dos ouvidos dava uma sensação diferente. Quem assistiu "Cinema Paradiso", me entenderá.


O EPISCÓPIO

O papai tinha um episcópio, comprado na Ótica Isis, do Sr. Eunézimo Lima. Era o "data show" daquela época, só que funcionava manualmente. Com ele, podia-se projetar gravuras, ou textos na parede ou mesmo numa tela improvisada. Papai o utilizava principalmente para ilustrar suas aulas de História ou Francês. Fuçando no dito cujo, certa vez, descobri uma forma de "utilizá-lo" para minhas "artes" pouco recomendáveis. Tirei sua lente e, contra o sol, literalmente "torrava" as formigas e outros insetos que dessem azar de cruzar pelo meu caminho. Também queimava folhas secas, papéis e, de vez em quando, queimava até os dedos de inocentes curiosos que queriam vê-los "esquentar só um pouquinho". Ao saber de minhas traquinagens com o episcópio, que chamávamos de "projetor", além do fato de tirar sua lente, correndo o risco de estragá-lo, papai me proibiu de fazer aquilo novamente. Afinal, precisava do aparelho para suas aulas.

Mas, para uma criança fazer alguma coisa errada, basta proibí-la...

Assim, num determinado dia, ele foi trabalhar como sempre. Antes de sair para o Fórum, escondeu a chave por precaução, pois sabia do que eu era capaz. É claro que não demorou muito e eu descobri onde ela estava: dentro de um copo, na cristaleira. Por sorte - ou por azar - naquele dia eu tivera só três horários na Escola e minha aula acabara mais cedo, antes do recreio. Dessa vez, não fiquei para a "pelada" no pátio da Escola e logo peguei minha bicicleta, rumando-me direto para casa. No caminho, fiquei arquitetando e mirabolando quantas folhas iria queimar ou quantas formigas iria transformar em churrasco.

Cheguei em casa, cumprimentei mamãe e esperei o momento para dar o "bote" na chave. Quando a sua máquina de costura voltou a funcionar, aproveitei e abri o escritório bem devagar para ela não ouvir. Surrupiei o projetor e levei-o até o terraço, a fim de concluir meu maligno plano de calcinar os infelizes e azarados insetos.

Porém, após uma série de "sacrifícios" acho que as "almas" daqueles bichinhos resolveram se vingar de seu algoz.... Num dado momento, distraí-me e eis que a lente que estava num suporte despencara na casa do vizinho Poli, o Alexandre, filho do seu Juquinha do Armazém Dragão! Era uma altura de uns 3 metros e eu temi pelo pior. O que falaria para o papai quando ele chegasse? Primeiro teria que explicar a minha desobediência. Sem contar com o fato de ter espatifado um instrumento de trabalho seu! Esfriei. Era muito alto para uma lente ter "sobrevivido" à queda! Seria castigado! Mas, eis que ouvi um chamado. Era o José Augusto, irmão do Poli. Acho que meu anjo da guarda resolveu me dar uma mão.

Na verdade, meu anjo era ele próprio: o José Augusto. A lente estava intacta! Só havia quebrado o seu suporte, que era de plástico. Com sua solidariedade habitual, ele pegou as partes do referido suporte e colou-as com "Cola-Tudo", uma por uma. Um autêntico exercício de paciência e habilidade! O resultado ficara impecável! Só mesmo um "expert" poderia notar que a peça tinha quebrado. Agradeci ao caro amigo e coloquei o projetor de volta ao seu lugar. Dessa vez escapara de mais uma punição exemplar. Jurei que nunca mais faria aquilo novamente. Somente, muito tempo depois é que o papai ficou sabendo do "crime perfeito" perpetrado pelo seu travesso rebento! Caso contrário...


A AUTORIDADE E O DISCO VOADOR

Houve um tempo em que a estrada para a região de Furnas era pura terra, sem caminho definido. O Dr. Arnaldo de Senna, tinha um sítio naquelas bandas e, quando ia para lá com a família, sempre seguia pela mesma rota. Era um trilha que ele mesmo havia traçado através de determinados pontos de referência ao longo do trajeto. Veio o final de semana e parte de sua família, além do amigo comum, Davi, foram para "a roça", conforme chamavam o lugar. Como Davi estava também de carro, o Cláudio Fernando e o Paulo Márcio, foram com ele. Adoravam andar naquele vistoso "fusca azul do Davizinho!" O Dr. Arnaldo foi na sua Veraneio, verde-limão, juntamente com a esposa, a exímia pintora, D. Norma, mais a recém-nascida Júnia.

Passaram todo o dia no bucólico lugar. O tempo deu uma guinada e uma chuva forte ameaçava cair. Decidiram voltar para casa. Os garotos não gostaram da idéia, mas tiveram que acatar as ordens do pai. Apesar da ameaça de tempestade, a viagem esta tranqüila, até que o fusca do Davi pifou no meio do caminho. Bateria descarregada. Já estava escurecendo. Provavelmente não mais teriam tempo para voltar, pois escurecia rapidamente. Resolveram "apear" no local onde pararam. Aconchegaram-se nos carros. O sol se pôs e a noite chegou. Os meninos, cansados pelo dia intenso, acabaram caindo no sono.

No meio da madrugada, o Dr. Arnaldo, de repente, acordou porque sua esposa não parava de tremer. Achou estranho e perguntou-lhe o que estava se passando. Nem foi preciso esperar pela resposta. À frente de seu carro, avistaram uma luz fortíssima. Branca. Diferente de qualquer outra que já tinham visto. Naquela época, não se falava muito em avistamento de OVNIs, portanto, tal visão era por demais impressionante. Com sua refinada ironia, comentou com seu amigo. o Juiz: "Walter, acho que vi Jesus..."


O SAUDOSO E VELHO FÓRUM

Os mais novos já devem ter visto em fotografias, a imponência do velho Fórum, que funcionava exatamente onde hoje estão suas modernas instalações. Era um velho prédio, centenário, cuja reforma foi tentada, mas em vão, pois os órgãos governamentais se mostraram insensíveis, preferindo demolir o antigo prédio, de tantas tradições, para construir outro no mesmo local, inaugurado no governo Magalhães Pinto, cujo nome lhe foi dado. Quantas noites em claro vimos papai passar, despachando os processos ou presidindo julgamentos pelo júri. Quantos bules de café mamãe teve que fazer para serem levados pelo João Batista, grande e saudoso Oficial de Justiça - dedicado, competente e honesto, acima de tudo - ao seu dileto "chefe", que tanto prezava (a recíproca era mais do que verdadeira) para aliviar o cansaço daqueles desgastantes momentos! Os espectadores dos júris se deliciavam com os acalorados e cultos debates que tratavam advogados do alto porte dos Drs. José César Soraggi, Jadir Brito da Silva, Guilherme Bonaccorsi e Fernando Gonzaga de Barros (nomes lembrados pelo papai), na defesa ou na assistência de acusação, enfrentando os não menos extraordinários Promotores de Justiça, Drs. Arnaldo de Senna e Joaquim Alves de Andrade - cada um em seu tempo. Eram valiosas lições de direito, lançadas em verdadeiras aulas de eloqüência forense. Tenho certeza que foi a partir de então que o Márcio e Marcelo tomaram gosto pela matéria, pois ambos estudaram Direito. Infelizmente, preferi outra área - a da Administração de Empresas - senão poderia ter sorvido da grande experiência de nosso genitor.

Nos períodos de eleições, sempre disputadas em alto nível, dignas da mais alta educação política (pena que esse tempo já passou...) - aspecto em que Formiga dava lições a outros municípios - o Fórum carecia de funcionários, não obstante a requisição de alguns, advindos de outras repartições. Papai, então, resolveu empregar mão-de-obra doméstica e colocou todos nós da família - exceto a caçula Marta, porque ainda era muito pequena - para ajudar na preparação das eleições e nas apurações. Enquanto Mamãe, que sempre teve letra muito bonita (até hoje!), fazia cartazes, etiquetas e avisos os mais variados, Maria Clara e eu trabalhávamos nos títulos eleitorais.

Nossa função era pregar os retratos. Portanto, todas as tardes íamos "trabalhar" no Fórum, todavia, os problemas aconteceram, como não podia deixar de ser. O Márcio faltava em demasia, apesar de remunerado com pequena gratificação, que Papai tirava do próprio bolso, e nem sempre estava trajado "de maneira condizente", segundo o papai. Nas raras vezes em que aparecia no Cartório Eleitoral, era obrigado a voltar para casa para "calçar os sapatos", pois o Juiz - e não, o pai - não permitia que entrassem em seu gabinete ou no cartório, sem o devido respeito ao decoro quanto ao vestuário, principalmente portando "sandálias" ou "chinelos", como era o caso do Márcio. Assim, ele acabou por ser sumariamente "demitido".

O Marcelo, por sua vez, teve menos azar, apesar de seus cabelos "à la black power", estranhamente pintados de amarelo, fruto do trote que havia tomado quando passou no vestibular. Ele atuava com intensidade nas apurações. Comigo e com minha irmã, a coisa foi ainda pior. De má vontade íamos para o Fórum (quantas brincadeiras deixadas para trás!). Como disse, nossa tarefa era colar retratos. Durante tão "difícil" encargo, não nos contíamos e ríamos bastante - longe do Juiz, é claro - das "caras estranhas" que as fotos mostravam. Era cada figura! A cada "colada", uma risadinha marota. Sempre um olhando para o outro com cara de deboche e "plaft", mais uma foto em mais um título de eleitor. Certo dia, ao final do expediente, eis a surpresa desagradável - descoberta em tempo pela eficiente funcionária Maria Trindade. Havíamos pregado muitas fotos em títulos errados (!), ou seja, foto de um em título de outro!

O erro foi consertado, mas perdemos nosso "emprego"...: fomos sumariamente "demitidos", para nunca mais voltar... Papai deve ter chegado à tardia, mas sábia conclusão de que era melhor ficarmos em casa do que, ao invés de "trabalhar", "atrapalhar".

A coluna "Formiga e Seus Causos" é publicada semanalmente no jornal formiguense, NOVA IMPRENSA, A GAZETA DO OESTE, desde Fev/1998.

Jornal Nova Imprensa